Graças a Deus
- É verdade que o Joãozinho nasceu muito feio. Mas, por favor, não exagere, não na frente da mãe dele. Eu disse para não exagerar ? Quis dizer para não falar nada, é claro. E precisava dizer ? Além do mais, qual é o problema com um bebê feio? Ou uma criança feia ? Poderia não ter saúde também; mas é uma criança tão esperta! Graças a Deus. Pena que esta suspeita de dengue agora... É isso que dá. Olha, o pai dele chegou.
João, o pai, entrou e sentou, sentou e olhou para a frente - e chorou, chorou, chorou. Não que inundasse a sala, mas fez uma bela molhadeira em sua perna - a esquerda, a direita ficou quase seca. As mãos também: a direita não perdeu, de longe, o banho que a esquerda tomou ao tentar caridosamente esconder o vazamento dos olhos de seu dono. Os olhos, percebe-se melhor agora, não colaboraram com a mão esquerda - e não teria servido de nada uma intervenção também da mão direita.
Depois deste intervalo na cooperação entre seus órgãos de sentido (visto que o ouvido, que não gosta de choro, retirou-se durante o evento, razão pela qual João não ouviu nada do que se disse) as vozes voltaram a perguntar o que era, o que era - Era sempre assim, não há motivo para insistir no assunto. Para quê, meu Deus ? Deixem-me chorar.
- O que houve, João ? Não diga que o Joãozinho... Ai, meu Deus - ! E desmaiou.
João levantou, tão mais calmo, enxugou quase completamente o rosto e disse, feliz por ter sido compreendido:
- O Joãozinho ? Feio como sempre. Graças a Deus.
Talvez mais feio que nunca.
Escrito por Igor às 10h58
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